5 perguntas, 1 indicação: Alex Bretas!

O 5 perguntas e 1 indicação é uma seção do nosso blog em que entrevistamos algumas pessoas que admiramos bastante! A ideia aqui é compartilhar os valores, visões e opiniões de pessoas que usam a criatividade e educação como bases para a sua atuação. Tudo isso para fazer com que as bases de uma educação mais criativa se espalhem cada vez mais, nos mais diferentes contextos.

E o nosso convidado é o Alex Bretas! Mineiro, escritor, designer de comunidades de aprendizagem autodirigida e cantor nas horas vagas, o Alex trabalha e estuda aprendizagem autodirigida e novas formas de aprendizagem. Lançou dois livros: “Doutorado Informal” e “Kit Educação Fora da Caixa”. Hoje, ajuda as pessoas a ter foco, persistir e encontrar tempo na sua rotina para aprender.

1. Para você, o que é criatividade?

Recentemente, lancei junto com outros três coautores (Alexandre Santille, Conrado Schlochauer e Tonia Casarin) o livro “Core Skills: 10 habilidades essenciais para um mundo em transformação”. Um dos capítulos aborda a criatividade. Gosto bastante do conceito que desenvolvemos lá, que diz que ser criativo é a capacidade de enxergar o invisível a partir de combinações inesperadas entre as coisas. A pessoa criativa desenvolve um repertório rico e diverso o suficiente para possibilitar uma “rede de perambulações mentais” que leva à inovação. Além disso, ela entende como funciona seu próprio processo criativo e está conectada a alguma fonte de motivação intrínseca — isto é, algo que a energiza e a faz levantar da cama todos os dias. A criatividade é muito mais provável de emergir quando estamos realizando algo porque queremos e/ou porque faz sentido, em vez de estarmos obedecendo ao comando de alguém.

2. Hoje em dia se fala muito na autonomia como um dos pilares da educação. Na sua visão, que elementos ao longo da história do desenvolvimento dos nossos modelos de educação levaram a essa conclusão? E qual será o papel da autonomia na educação do futuro?

Um primeiro ponto importante é que a autonomia nos processos educacionais é muito mais falada do que praticada de fato. E isso ocorre porque estamos vivendo uma inércia sem precedentes em nossos sistemas de educação: desde o século XVIII, métodos como aulas expositivas, provas escritas e punições e recompensas vêm sendo utilizados. A visão baseada na autonomia e na liberdade das pessoas em perseguirem seus próprios objetivos de aprendizado se fortaleceu a partir de algumas perspectivas da Filosofia, da Literatura e da Psicologia — notadamente em Rousseau, Tolstoi e em certas compreensões da psicanálise. Mas os imperativos da evangelização e da industrialização em massa foram certamente mais fortes do que esses movimentos.

A autonomia é crítica para a educação do futuro porque é a partir dela que as pessoas conseguem criar coisas novas, para além de reproduzirem coisas velhas. Uma educação heterodirigida — isto é, em que o outro dirige o que eu aprendo — invariavelmente gera pessoas e profissionais mais hábeis em reproduzir do que em criar. E o futuro vem com problemas novos que requerem soluções novas.

3. O que significa aprendizagem autodirigida e como ela se aplicaria ao aprendizado infantil?

Aprendizagem autodirigida significa o aprendiz tomando controle sobre seu próprio processo educacional. Nesse processo, ele define o que quer aprender, como, com quem, quando, onde e por quê. Ele decide se e quando faz sentido participar de iniciativas educacionais formais (por exemplo, cursos), e, mesmo nesses espaços, ele busca preservar ao máximo sua autodireção. Aprender de maneira autodirigida, nesse sentido, é o mesmo que aprender sem se submeter.

Blake Boles, cujo livro “A Arte da Aprendizagem Autodirigida” eu traduzi alguns anos atrás, tem uma definição de aprendizado autodirigido baseada em 4 pilares:

  • Estudar ou praticar algo porque aquilo é importante, significativo ou prazeroso pra você;
  • Buscar proativamente as ajudas e parcerias que você precisa ao longo desse caminho;
  • Definir os próprios critérios de sucesso em relação ao seu aprendizado;
  • Assumir a responsabilidade final pelo resultado de seus esforços.

Quanto mais a aprendizagem se reveste desses quatro princípios, mais ela pode ser chamada de autodirigida.

4. Como pais, professores ou profissionais que lidam com educação de forma abrangente podem incentivar o aprendizado autodirigido?

Uma das coisas mais importantes é não atrapalhar. Infelizmente, pais, professores e profissionais da educação de forma ampla costumam atrapalhar muito com suas intervenções e direcionamentos. É fundamental dar espaço, observar de longe e simplesmente deixar a criança, adolescente ou adulto experimentar as situações da vida — tédio, inclusive. E, em paralelo, desenvolver uma conexão íntima de amizade com o aprendiz para que ele sinta que pode recorrer a você, se necessário.

Outra coisa importante é prestar atenção aos contextos, espaços e relações nos quais a criança, adolescente ou adulto habita. Esses elementos têm o poder de moldar decisões e comportamentos. Se o filho tem pais que gostam muito de ler e livros e revistas por toda a casa, não vai demorar para ele demonstrar interesse em leitura por conta própria, por exemplo. As crianças (e também os adultos) são muito influenciados pelo ambiente e pelas pessoas ao seu redor.

5. Qual foi o papel da criatividade na tua jornada do auto aprendizado?

Foi absolutamente fundamental, dado que minha jornada foi acima de tudo um processo de criação, e não de reprodução. A partir de tudo que absorvi sobre projetos, pessoas, redes, conceitos e práticas que me interessavam, sinto que eu “pari” algo único. A “antropofagia” que ocorreu no momento em que eu escrevia os livros resultantes da minha jornada serve de base até hoje para todos os projetos educacionais nos quais me envolvo. Pra mim, percursos de aprendizagem autodirigidos são análogos a processos de nascimento. E não há nada mais criativo do que uma nova vida que emerge no mundo.

Indique alguma coisa que precisamos passar adiante! (Filme, série, livro, qualquer coisa!)

Sempre indico o livro “Educação democrática: o começo de uma história”, de Yaacov Hecht, um educador israelense que foi pioneiro na criação do movimento das escolas democráticas. No capítulo 3 desse livro, Yaacov criou um modelo para explicar como ocorre a aprendizagem que considero “criadora”. É simplesmente maravilhoso.

* Este artigo do Imagine-me foi revisado por Julio Cunha Neto, do Português de Boa.