5 perguntas, 1 indicação: Maria Claudia!

O 5 perguntas e 1 indicação é uma seção do nosso blog em que entrevistamos pessoas que admiramos bastante! A ideia aqui é compartilhar os valores, visões e opiniões de quem usa a criatividade e a educação como bases para transformar a sociedade. São exemplos que podem inspirar mais gente, nos mais diferentes contextos.

A nossa primeira convidada é a Maria Cláudia Schmitt Araujo, professora de matemática do Colégio Sagrada Família e da Escola Internacional UNISOCIESC, além de mestranda da UFSC – tudo isso em Blumenau, Santa Catarina. Conversamos um pouco com ela sobre a aplicação da criatividade e de recursos pedagógicos diferenciados na sala de aula (e na matemática!). O papo foi muito interessante, olha só:

1. Para você, o que é criatividade?

Criatividade é um pouco da maneira como você enxerga as coisas: talvez minha maneira de ser criativa pode ser diferente da sua… e, ao mesmo, tempo é tentar – não inovar! – mas fazer algo diferente. Acho que criatividade é você se reinventar um pouco, pensar de maneira diferente e criar algo novo pra você.

2. Como a criatividade entra no dia a dia da sala de aula?

Pro professor, durante toda a aula. Desde o planejamento, quando ele começa a pensar em algo diferente pra introduzir um conteúdo novo, algo mais contextualizado… algo pra prender a atenção do aluno. Também precisa ser criativo na hora que vai passar isso pros alunos, porque você pode planejar de uma maneira, mas o jeito com que você fala – que você age com seus alunos – não passa a mesma ideia do que você planejou.

Na hora de avaliar os alunos, também: seja avaliar por meio de uma avaliação mesmo, como uma prova, ou por meio de um trabalho, ou até avaliação diária. Se os alunos realmente entenderam o conteúdo, você tem que ter uma maneira diferente de verificar isso com eles. E, também, no pós-aula, que é quando você reflete se aquilo realmente atingiu o objetivo que você queria ou se precisa mudar para a próxima aula. Enfim: como isso vai interferir no andamento das suas aulas.

3. Quais recursos pedagógicos você usa nas suas aulas?

Na matemática, a gente acaba de alguma maneira se apegando ao tradicional. Mas eu tento sempre trazer os conteúdos para a realidade. Meus alunos dão risada porque todos os exemplos que eu dou, em todo e qualquer conteúdo, tem comida: bolo, pizza, bala, chocolate… Independente se é fração, se a gente tá falando de geometria, trabalhando com múltiplos… Em qualquer conteúdo eu envolvo comida – uma coisa minha, quase uma marca registrada! Eu sou um pouco apegada com o quadro, então tenho muito costume de manter o registro em quadro, caderno… 

Em matemática, por mais que você traga algo diferenciado, é no exercício que o aluno vê se ele realmente entendeu e você pode transformar esse exercício de uma maneira diferente.

As provas deles, por exemplo, costumam ter situações das quais a gente falou em sala de aula e até brincadeiras nossas. Em vez de usar nomes aleatórios, eu procuro sempre usar o nome deles. Então, eles se identificam e dão risada durante a prova porque eles estão ali. 

Além disso, no Sagrada Família cada aluno recebe [para uso em sala de aula] um Chromebook. Então, questões de pesquisa facilitam um pouco, e fazemos também a avaliação por meio do computador, com formulário do Google. Conteúdos mais teóricos, que são mais chatinhos de avaliar com eles, eu faço dessa forma pra ficar um pouquinho diferente. A gente tem a cozinha à disposição, então também tentamos fazer algumas aulas de culinária dentro do conteúdo. Exemplo: se estamos trabalhando medidas de massa, vamos à cozinha fazer uma receita em que você precisa usar a balança, em que você vai pensar em quilogramas, gramas, e assim por diante. 

Mas eu acho que você tendo VOCÊ e sabendo usar isso a seu favor já é um recurso excelente! O aluno precisa de algo que prenda a atenção dele, então às vezes você tem à sua disposição mil e uma coisas diferentes, mas a sua aula não prende, não fascina, não desperta nada.

E às vezes com o mínimo de recurso você transforma sua aula em algo que para os alunos é extraordinário.

Eu sou bem do simples, do “menos é mais”, e procuro atender a atenção deles nesse ponto. Quando eu vejo que tá muito monótono, que eles estão muito quietos, eu grito mesmo! [Risos] Eu dou uns gritos, pra ver se tá todo mundo acordado, se tá todo mundo bem. Alguns dão uns pulos da cadeira, mas eles já estão acostumados. [Risos] Então, eles sabem que aquele momento é pra ver se tá todo mundo realmente prestando atenção.

4. Dá pra exercitar a criatividade ensinando (e aprendendo) matemática, então?

Ensinando, sim, e aprendendo, também! A gente costuma, principalmente em resolução de problemas, tentar ver se tem mais de uma maneira [de resolver o problema]: “Eu só posso responder dessa maneira? Eu posso fazer de outra?” Ou, às vezes, o simples fato de tu perguntares pra eles: “Beleza, estamos vendo multiplicação.. onde que vocês já viram multiplicação na vida de vocês? Onde podemos usar? A gente pode não usar, mas será que alguém tá usando nesse momento em alguma coisa?.” Trazer essa reflexão do dia a dia e procurar a aplicação já é um meio de criatividade. Procurar sempre as maneiras diferentes de resolver um problema também é uma forma de ser criativo, né?

5. Quais são as tendências atuais que você observa com relação a recursos pedagógicos que fomentem práticas criativas em sala de aula?

Tá cada vez mais difícil prender a atenção do aluno. Eles têm à disposição muita coisa e, hoje em dia, tu fazes qualquer coisa com teu celular – e eles, cada vez mais cedo, têm acesso a isso. Em sala de aula, os alunos perdem o interesse muito rápido, questionam cada vez mais cedo. É o clássico “por que eu tenho que aprender isso?” ou “onde eu vou usar isso na minha vida?”. Então, eu acho que uma tendência atual é cada vez mais trazer teus conteúdos pra realidade.

Instigar, despertar o interesse do aluno, acho que isso é uma das coisas mais difíceis por conta desse acesso muito fácil a tudo quanto é tipo de informação.

Hoje também eles te enfrentam, questionam mais. Então, uma coisa que funciona é tu trazê-los para a tecnologia. O simples fato de eu transformar uma prova do papel para o computador, pra eles, já é algo impressionante! Traz uma atenção maior. Muitas vezes é exatamente a mesma coisa, mas o fato de eles não precisarem escrever no papel e, sim, olhar na tela do computador já é diferente. 

O que eu tenho sentido agora com essa situação que a gente tá vivendo, essa questão de quarentena e aulas remotas, é o quanto é importante a gente concentrar os conteúdos e realmente passar o necessário pra eles.

Se já é difícil prender a atenção deles em sala de aula – em que você está, chama a atenção, traz ele pra perto, pergunta, instiga e estimula a participação -, com as aulas remotas é muito mais difícil! Eles aguentam ficar cinco, seis horas direto maratonando séries, mas não aguentam ficar 40 minutos escutando explicação do professor. Então, de alguma maneira, tu tens que trazer isso mais pra perto deles também, é um novo desafio. Quanto mais conseguirmos entrar no universo deles, melhor pra gente e pro aprendizado deles, também.

Indique alguma coisa que precisamos passar adiante! (Filme, série, livro, qualquer coisa!)

Apesar de ser um filme antigo, mas principalmente por esse momento que a gente tá vivendo, é bem importante (e eu gosto bastante!) o filme Divertidamente! A gente tem que entender que quando a gente não tá bem, tá tudo bem também! E que temos que extrair – até das coisas ruins – bons ensinamentos pra gente viver em paz. Essa seria minha indicação pra entendermos um pouquinho melhor como funciona a nossa cabeça e entender que, às vezes, vai tá tudo bem, vai tá tudo bom, às vezes não vai… Todo mundo erra, todo mundo tem dias mais tristes, tem arrependimentos maiores e a gente tem que aprender a viver com tudo isso.

* Este artigo do Imagine-me foi revisado por Julio Cunha Neto, do Português de Boa.

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