Qual é o valor da criatividade na educação?

Por muito tempo, criatividade foi associada unicamente à arte e algumas profissões próximas a ela – como design, arquitetura e publicidade. Ainda hoje, é bastante comum que as pessoas se refiram a profissionais dessas áreas como “os criativos”. Entretanto, isso gera uma espécie de “aura” ao redor da criatividade, como se essa habilidade fosse para poucos e restrita a campos específicos do conhecimento. No entanto, a verdade não é essa.

Ken Robinson, no seu famoso Ted Talk intitulado “Do Schools Kill Creativity?” (“As escolas matam a criatividade?”), define criatividade como “o processo de ter ideias originais e que tenham valor”. Tanto Robinson quanto outros autores tratam a criatividade de forma ampla, deixando claro que ela não é um atributo exclusivo de um grupo específico de profissionais, mas sim aplicável a todos. Um exemplo prático é o empreendedorismo, no qual o objetivo maior é solucionar algum problema para melhorar a vida das pessoas e lucrar com isso. Para solucionar um problema de forma original e útil, o empreendedor precisa ser criativo.

Um estudo desenvolvido em 2016 pela empresa Adobe em cinco países (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e Japão) aponta que as pessoas, em geral, acreditam que a criatividade oferece benesses em diversas áreas. Os participantes disseram acreditar que empresas que investem em criatividade têm maiores chances de serem inovadoras, obter mais lucros, aumentar sua produtividade e, até mesmo, desenvolver uma maior taxa de felicidade entre os empregados. Ainda segundo a pesquisa, as pessoas que se consideram “alguém que cria” indicaram receber melhores salários, serem mais felizes nos seus empregos e terem mais autoestima do que as que não se consideram criativas (e mais: elas acreditam que a criatividade as deixa melhores, inclusive, como estudantes e pais!). Para concluir, a pesquisa aponta que as pessoas acreditam que países que investem mais em criatividade são mais propensos a serem inovadores, obter melhores resultados econômicos e, ainda, ter cidadãos mais felizes. As pessoas realmente percebem a criatividade como um fator-chave para uma melhor qualidade de vida.

Agora, vamos aos dados negativos apontados pela pesquisa: apenas quatro em cada dez participantes se consideram criativos, e só 31% acreditam que estão vivendo o seu potencial criativo. Para piorar, a maioria disse acreditar que o sistema educacional sufoca a criatividade, e apenas 37% disseram que os governos encorajam as escolas a ensinar os alunos a serem mais criativos.

Parece claro que existe um descontentamento com relação à intensidade com a qual a criatividade é estimulada nas escolas – ainda que ela seja um atributo valorizado pelas pessoas e considerado capaz de transformar as suas vidas para melhor. 

Isso nos leva, então, à ideia de inserir elementos estimulantes para a criatividade dentro da educação, ou seja, uma educação mais criativa.

Talvez você ainda não esteja convencido e esteja se perguntando: “Mas qual é o valor prático de uma educação mais criativa?” Então, vamos lá: no já mencionado Ted Talk, Robinson diz que “escolas estão educando para um futuro que não sabemos como será”. Você já parou para pensar no quão rápido o nosso estilo de vida tem mudado nos últimos anos? Apenas como exemplo, brasileiros que hoje estão com cerca de 90 anos possivelmente passaram de uma realidade em que não possuíam luz elétrica em casa para outra na qual possuem o acesso a praticamente qualquer informação em um smartphone que cabe na palma da sua mão (aliás, se tiverem a oportunidade, conversem com os seus avós ou pais sobre as transformações que eles viveram. Vale a pena!). Smartphones que, por sinal, tornaram-se populares apenas a partir de 2007 e 2008, com os lançamentos do iPhone, da Apple, e do sistema operacional Android, do Google. Veja o quanto a sua vida foi transformada em um período tão curto de tempo e quantas indústrias um único produto transformou!

Proponho um desafio: reflita um pouco a respeito de como era a sua vida há 15 ou 20 anos. O que você fazia nos seus momentos de lazer? Como se comunicava com as pessoas? Como você estudava ou trabalhava? Agora, compare as respostas com as que você daria se lhe fossem feitas as mesmas perguntas hoje. Aposto que muita coisa mudou, não é? E aposto que muitas dessas mudanças você não pensou que aconteceriam.

O que quero dizer com isso é que a tendência é que as mudanças se tornem cada vez mais rápidas.

Em termos de trabalho, a maioria dos nossos avós construiu uma carreira na mesma empresa; para os nossos pais, o cenário foi semelhante, ou pelo menos permitiu que construíssem uma carreira na mesma profissão. Para nós, é grande a possibilidade de trocarmos de profissão (ou não pararmos de trabalhar) ao longo da vida, seja por pressão do mercado, extinção da profissão ou mesmo inquietude. Para as crianças de hoje, no entanto, o cenário é ainda mais complexo. Em 2013, um estudo desenvolvido nos EUA apontou que aproximadamente 47% (quase a metade!) dos empregos no país estavam em situação de risco – ou seja, podiam ser substituídos por máquinas no curto prazo. Arrisco-me a dizer que as crianças de hoje vão precisar se reinventar muito mais do que imaginamos. E, para isso, elas vão precisar ser criativas.

Aqui no Imagine-me nós acreditamos na relevância de mais criatividade na educação. E você, o que acha? Vamos juntos?

Pablo Herzog

Equipe Imagine-me

* Este artigo do Imagine-me foi revisado por Julio Cunha Neto, do Português de Boa.

Queremos um mundo mais criativo, vamos juntos?

A história do Imagine-me começa ainda em 2015, a partir do relato de uma mãe preocupada com a auto-expressão do seu filho na escola. Nesse colégio, através do relato dessa mãe, soubemos que não era permitido às crianças levarem brinquedos de suas casas à escola durante os períodos de brincadeira. A justificativa era que, se fosse permitido, a escola estaria incentivando o consumismo entre os coleguinhas. Entendemos essa razão, mas, assim como essa mãe, pensamos… será que não haveria uma maneira de possibilitar essa auto-expressão da criança sem trazer junto os aspectos do consumismo? Tem que existir! 

Como podemos permitir que a criança use seu brinquedo como forma de expressão e afirmação com seus colegas, mas sem o apelo comercial ou consumista? 

Como designers, esse foi o desafio que propusemos a nós mesmos. E foi a partir das várias fontes que consultamos e pessoas da área com quem falamos a partir disso que constatamos o quão importante era trabalharmos para possibilitar ambientes (e não só a escola) em que as crianças possam realmente e autenticamente expressar-se através de brinquedos. Mas não brinquedos já prontos da fábrica, e sim jogos, bonecos e aventuras de sua própria autoria. E esse foi o ponto de surgimento original do que viria a ser o Imagine-me:

Ao invés das crianças consumirem passivamente os heróis e histórias prontos, por que não criar os seus próprios?

Com essa pré-solução possível ao desafio que havíamos formulado, colocamos nossa criatividade para funcionar. Depois de 6 meses, aplicando o método de design e contando com a ajuda de muitas pessoas fantásticas (entre pedagogos, psicólogos e professores), criamos o Imagine-me. Tivemos a campanha de financiamento coletivo para possibilitar a produção das primeiras unidades (isso vai ser uma história para um outro texto), e então criamos o site, um ano depois lançamos o volume DOIS, um ano depois novamente o volume THREE, e hoje estamos aqui, com site novo e muitos planos para 2020 🙂

Mas, voltando à nossa trajetória, hoje vemos que todo o desenvolvimento do Imagine-me, naquela época e ainda hoje, baseou-se em 2 princípios básicos: 

1. Criar!

 “Criatividade é inventar, experimentar, crescer, correr riscos, quebrar regras, cometer erros, e se divertir.” Mary Lou Cook (1918-atual), educadora estadunidense

Aqui falamos do Criar mesmo, com C maiúsculo. É o Criar que significa elaborar algo que só você, com a sua bagagem cultural e modo de ver o mundo, pode fazer. É passar para o papel um pouco de quem você é e expressar os seus sentimentos e percepções através da arte! 

Criar de verdade também é trilhar o caminho que pareça, a princípio, mais difícil e trabalhoso, mas que se mostra muito mais benéfico ao final. A tentativa e o erro não são acidentes, mas fazem parte do processo.

Criar de verdade também é explorar novas maneiras de ver o mundo, que você nunca pensou antes. Mais do que a experimentação por si só, a reflexão posterior sobre o que você criou é uma fonte para conhecer a si e suas relações com o mundo.

Esse, para nós, é o criar verdadeiro: um que permite a auto-expressão pela arte, em que criar e aprender são intimamente ligados pela experimentação e pela tentativa e erro, e em que o aprendizado é internalizado pela reflexão!

Mas esse é só um dos princípios do imagine-me, o outro é:

2. Pró-atividade

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” Paulo Freire (1921-1997), educador brasileiro

Um criar por si só não basta. Queremos que a atividade seja divertida e um meio para um aprendizado que permaneça. Um aprender de verdade requer tanto divertir-se (afinal, “criatividade é a inteligência se divertindo”!) quanto contextualizar o aprendido na sua própria vida. E tem algo melhor para isso do que participar ativamente do desenvolvimento desse aprendizado? Quando a criança se torna parte importante e presente da formatação da própria brincadeira, coisas fantásticas acontecem. Cocriar a brincadeira significa, ao mesmo tempo, tomar as rédeas da atividade, abrindo amplos horizontes e ensinando muitas responsabilidades!

Criar proativamente também envolve “botar a mão na massa”. Queremos que as crianças sejam protagonistas da sua brincadeira e, portanto, do seu aprendizado. As brincadeiras mais significativas não são as que vêm prontas na tela do celular, mas aquelas que precisam ser tocadas, mexidas, reposicionadas… realmente experienciadas, enfim.

Acreditamos que o criar verdadeiro só se realiza quando também for pró-ativo, através de uma atividade que seja divertida, cocriada pela criança e experienciada em primeira mão.

E é isso 😉

Temos muito claro que criamos o Imagine-me com o propósito de permitir experiências de criação mais abertas, pessoais e, justamente por isso, mais significativas. Acreditamos que a educação do século XXI proporcionará experiências singulares, e vemos o Imagine-me como uma ferramenta para alcançarmos essa visão.

Acreditamos que a brincadeira que se cria é muito mais do que a brincadeira que se consome 🙂

Guilherme, Henrique e Pablo

Equipe Imagine-me

Sim! Casa nova, blog novo e muitas novidades!

Olá pessoal!

Gostaram do nosso novo espaço? A partir de hoje, vocês poderão acompanhar postagens no nosso blog, com conteúdos relacionados à educação e criatividade.

Aqui, de uma maneira mais organizada, teremos vários posts, listas, entrevistas com profissionais, eventos e muito mais (: Se interessou? Então fique de olho e nos acompanhe 😀

Até breve,

Guilherme, Henrique e Pablo

Equipe Imagine-me