5 perguntas, 1 indicação: Rafael Martins!

O 5 perguntas e 1 indicação é uma seção do nosso blog em que entrevistamos pessoas que admiramos bastante! A ideia aqui é compartilhar os valores, visões e opiniões de quem usa a criatividade e a educação como bases para transformar a sociedade. São exemplos que podem inspirar mais gente, nos mais diferentes contextos.

Nosso segundo entrevistado (se você não leu o primeiro 5 perguntas, 1 indicação, com a profa. de matemática Maria Cláudia, veja aqui – depois de ler este, claro ;)) é o Rafael Martins, CEO e co-fundador do Share, uma empresa de educação em comunicação. Colunista em diversos veículos nacionais especializados, o Rafa estuda profundamente o mercado de comunicação no Brasil e no mundo, participando ativamente dos maiores eventos de comunicação globais e também palestra em diversos eventos e para algumas das maiores empresas e agências do mercado, como Twitter, Facebook, Nubank, McDonalds, Globo, Redbull, Grupo RBS, Bradesco, 99, Pinterest, entre tantas outras.

No nosso papo, o Rafa falou como ele aborda a criatividade no dia a dia e nas atividades educativas do Share. Tiramos alguns insights muito interessantes sobre como aplicar o potencial criativo das pessoas – independentemente do contexto! Olha só:

1. Para você, o que é criatividade?

Criatividade é sobre sobrevivência, temos que ser criativos o tempo todo para resolver problemas, achar soluções. Não só no trabalho, mas na nossa vida pessoal.

2. O que você faz para exercitar a sua criatividade e com que frequência?

Para mim, criatividade é sobre repertório e método. Por isso tento estudar muitos temas que não necessariamente são de meu interesse para aumentar minha visão sobre diversos assuntos e que isso me dê repertório para, quando precisar ser criativo, achar soluções. Acompanho perfis no Instagram bem criativos, pessoas e perfis de marca também.

3. Como a criatividade está presente no seu dia a dia como empresário?

Como empresário preciso ser diariamente criativo para criar novos produtos, soluções, resolver problemas, surpreender os clientes, pensar no crescimento da empresa, na gestão das pessoas e em tudo que envolve a comunicação da marca. Ser criativo é um skill vital para qualquer um que empreende.

4. O Share é um negócio voltado a educação em comunicação. Como surgiu esse foco?

Surgiu da necessidade de ter um formato de educação bem focado em método de ensino, curadoria e ser algo mais leve e marcante. Quando começamos, o marketing digital estava surgindo no Brasil, existiam poucos players, muitos deles com foco mais comercial e mais tradicionais. Entendemos que existia uma oportunidade para uma empresa nova nesse segmento, que trouxesse uma forma mais divertida de levar conteúdo para os profissionais.

5. Como você acha que será a relevância da criatividade para o futuro das profissões, especialmente as ligadas à comunicação?

É importante desmistificar que criatividade é um dom ou uma atividade de um profissional específico. Para muitos, é uma atividade de publicitários, mas formas criativas de levar uma mensagem são vitais para uma comunicação cada vez mais rápida, com pouca atenção das pessoas e muitos formatos pipocando o tempo todo em nossa frente. Ser criativo nesse cenário é vital, pois na maioria das vezes nossos olhos prestam atenção em algo que nunca viram. 

Ainda: diversos institutos de pesquisa já mostram que criatividade é uma das skills mais necessárias para um profissional contemporâneo e que traz ótimos resultados, pois é no dia a dia que ele precisa trazer resultados, onde a criatividade se faz mais necessária. Por isso, estudar métodos criativos, aumentar seu repertório, inspirar-se em pessoas, perfis e campanhas pode ajudar qualquer profissional. 

Indique alguma coisa que precisamos passar adiante (Filme, série, livro… Qualquer coisa!).

Sigam estes perfis no Instagram:

@pablo.rochat

@unnecessaryinventions

@superwrongmagazine

@saquinhodelixo

* Este artigo do Imagine-me foi revisado por Julio Cunha Neto, do Português de Boa.

Quais brincadeiras marcaram a sua infância?

Hoje vamos falar de um assunto um pouco diferente aqui no blog. De tanto conversarmos sobre brinquedos, criatividade, diversão e educação, resolvemos nós mesmos contribuir com relatos pessoais sobre os brinquedos ou atividades que mais marcaram as nossas infâncias. De forma a deixar o exercício mais dinâmico, a regra foi: cada um poderia escolher apenas uma atividade ou brinquedo dentre tantos que discutimos por aqui. Todos na nossa equipe foram crianças nas décadas de 80 e 90, então você provavelmente vai identificar algumas delas. Olha só:

Imagem: Taru Huhkio – Unsplash

Pablo: Papel, lápis, canetinhas coloridas e lápis de cor foram as minhas maiores ferramentas na infância. Muito se devia a circunstâncias: não fiz o jardim A em uma escola tradicional, mas sim em uma escola de artes. Meu pai é arquiteto, uma das minhas avós tinha a pintura como hobby e um dos meus melhores amigos desenhava para um jornal local. Soma-se a isso meu gosto por revistas em quadrinhos (sempre fui fã da Turma da Mônica), almanaques típicos da época, desenhos animados, animes e videogame. Copiar os personagens foi o primeiro passo; criar os meus, apenas uma sequência natural. 😀

Imagem: Depositphotos

Guilherme: As lembranças das tardes passadas na casa dos meus avós, na zona rural, estão entre as melhores da minha infância. E imagino que seja assim para um bocado de outras pessoas também. Uma das atividades que mais me fascinava era observar e interagir com a natureza. Será que a galinha gosta mais de milho seco ou molhado? E essa trilha de formigas nesse caule, onde ela começa?  Hmmm… será que esse graveto aqui no chão não seria um… CAJADO MÁGICO? :O Naquela época, e ainda hoje, às vezes bastava olhar ao redor; o nosso entorno pode ser o brinquedo mais criativo de todos!

Imagem: São Simão Comércio Atacadista

Henrique: Acho que uma das coisas com que eu mais brinquei (que eu me lembre!) foi a Mola Maluca! Literalmente uma mola que a gente “jogava” de um lado para o outro… Só que, na verdade, ela servia para muitas outras coisas! Podia ser pulseira, podia “descer” escadas, funcionava como túnel pros carrinhos… A verdade é que a Mola Maluca é um dos brinquedos mais versáteis que a gente poderia ter porque se encaixava em qualquer brincadeira! 

E então, identificou-se? Mesmo que não, não tem problema! Aqui na Imagine-me consideramos a brincadeira uma coisa muito diversa e pessoal. Acreditamos que a criatividade só encontra seu verdadeiro potencial quando a criança (ou o adulto, por que não?) se engaja em atividades divertidas que tenham um significado próprio.

E então? Quais brincadeiras marcaram a sua infância? Contribua aqui nos comentários! 😉

Abraços!

Guilherme, Henrique e Pablo

Equipe Imagine-me

* Este artigo do Imagine-me foi revisado por Julio Cunha Neto, do Português de Boa.

Não existe aprendizado sem curiosidade

Jean Piaget (1896-1980), um dos pensadores mais influentes no desenvolvimento da pedagogia no século XX, afirmava que as crianças poderiam ser consideradas “pequenos cientistas”. Talvez por sua própria formação e atuação bastante variadas (ao longo de sua carreira, ele deu contribuições que partiram da computação, passando pela biologia, filosofia e, é claro, pela pedagogia e educação), Piaget entendia que uma atração pelo novo e pelo diferente é pré-requisito para a construção do conhecimento

Assim, do mesmo modo que o cientista investiga a realidade formatando, realizando e monitorando experimentos a partir de uma inquietação inicial (em termos de ciência, o que se chama de hipótese), também a criança faz sentido do mundo a partir de uma “faísca” inicial, muito parecida. É essa característica primordial que o cientista e a criança têm em comum: a curiosidade.

Um certo ímpeto para desbravar o desconhecido sempre esteve por trás do entendimento do que é a curiosidade (afinal, ela já foi até mesmo descrita por cientistas como a alegria da descoberta1). John Dewey (1859-1952), filósofo e reformador educacional, em seu livro “Como pensamos”, de 1979, afirma que a capacidade de aprendizado está precisamente no exercício da habilidade de “virar as coisas do avesso”. A curiosidade não somente seria um dos componentes desse ímpeto de descoberta, que sempre é deliberado, como também consistiria na base do já citado estágio dos “porquês” das crianças. Uma fase que, segundo ele, é nada menos do que “a fundação para o pensamento crítico” dos pequenos.

Ambos, Jean Piaget (à esquerda) e John Dewey (à direita), enxergam a curiosidade como um alicerce sólido no qual a criança pode calçar seu desenvolvimento. Dewey inclusive considerava a curiosidade infantil como estado mental mais “natural e não contaminado” e, por isso, a “base para desenvolver pensamentos robustos”.

A curiosidade, portanto, gira em torno desse desejo por descobrir e forma a base do modo pelo qual avaliamos o mundo como adultos. Adultos curiosos são justamente aqueles que conseguiram manter esse “deslumbramento infantil” de olhar um mundo repleto de mistérios e fascínios, intacto apesar das pressões sociais. E tudo aponta que esses adultos possam ser mais bem-sucedidos que os que, quando crianças, não tiveram seu potencial curioso encorajado e plenamente desenvolvido. Um estudo, intitulado “Early Childhood Curiosity and Kindergarten Reading and Math Academic Achievement“ (“Curiosidade Infantil Precoce e Leitura Pré-Escolar e Realizações Acadêmicas em Matemática”, em tradução livre) publicado na revista Pediatric Research 2, sugere que quanto mais curiosa é uma criança, maior é a probabilidade de ela ter um desempenho melhor na escola

Um exemplo bastante claro do quanto a curiosidade é uma característica tão essencial à infância é a famosa fase dos “porquês” pela qual toda criança passa. “Por que o vento existe? Por que aquele prédio é vermelho? Por que o gato faz ‘miau’?” (…)”.

Segundo uma pesquisa intitulada “Curiosity and Interest: The Benefits of Thriving on Novelty and Challenge3 (“Curiosidade e Interesse: Os Benefícios de Prosperar na Novidade e Desafio”, em tradução livre), ser curioso pressupõe características como abertura a novas experiências, desejo pela novidade e vontade de abraçar o inesperado, sem receios. Em última análise, portanto, podemos ver a curiosidade como um estado de enxergar o mundo que significa estar confortável com a incerteza

“ A curiosidade traz o risco da aventura, questionando, e, às vezes, até descobrindo, que suas próprias respostas estão erradas.”

Amós Oz, escritor israelense

Mas como pais e professores podem inspirar esses estados de inquietude e segurança com o incerto nas crianças? A verdade é que a curiosidade é um dos pressupostos mais essenciais à educação. Afinal ela já era descrita pelo filósofo romano Cícero, em 79 d.C. (há quase 2000 anos atrás!) como uma “paixão por aprender4. Ou seja: o entendimento de que aprender anda lado a lado com a curiosidade já não vem de hoje.  


E a ciência apoia essa constatação. A curiosidade estaria entre as quatro características essenciais para possibilitar um melhor aprendizado2.

A curiosidade é um dos 4 fatores para um melhor aprendizado

Curiosidadecapacidade para a invenção e imaginação
Autocontrolepersistência e atentividade a tarefas
Comportamento
pró-social
habilidade de formar e sustentar relações sociais
Regulação emocionalcapacidade de gerenciar sentimentos e comportamento


A mesma pesquisa ainda concluiu que a “motivação para aprender novas coisas” seria precisamente o aspecto da curiosidade que teria uma associação mais forte com a realização acadêmica. Segundo a amplamente aceita Teoria da autodeterminação (Self-Determination Theory), as crianças necessitariam de três ”nutrientes psicológicos” (como descrito pelo escritor norte-americano Nir Eyal 5 ) para desenvolverem um sentimento de motivação para a realização de suas atividades – em especial o aprendizado: (1) um sentimento de competência, (2) um sentimento de autonomia e (3) um sentimento de pertencimento. A chave para trabalhar a curiosidade das crianças passaria, portanto, pelo entendimento de que a motivação é multidimensional e depende do alinhamento desses vários elementos.

Mais precisamente, é possível pensar que entram em jogo tanto os traços da própria criança (genéticos ou de criação) como o contexto em que ela se encontra. Por isso, por mais predisposta que a criança esteja a ter traços de curiosidade, ela não vigora sem as condições propícias no seu ambiente3. A bibliografia científica é vasta na constatação da importância desse contexto, adequado ao surgimento e fortalecimento da curiosidade. Um estudo 6 constatou que a curiosidade depende da realização de atividades que estejam relacionadas aos seus interesses específicos. Já outra pesquisa 7 constatou a importância de atividades que sejam significativas em um nível pessoal para o fomento da curiosidade. E assim é com outra vasta parte do conhecimento acumulado sobre o tema – como é o caso de outros estudos já citados anteriormente neste texto 1 2 3 4

Pais e professores comprometidos com o fomento da curiosidade em seus filhos e alunos devem, portanto, ajudar a criança a identificar qual o significado pessoal de cada atividade que ela realiza. Incentivar sentimentos como autonomia,competência e conectividade pode ser a chave para isso 6.

Curiosidade é motivação: a importância da conexão pessoal com a atividade.

Ao longo deste texto vimos que a curiosidade é um dos pré-requisitos para uma inquietação que, por sua vez, leva à busca por explorar e entender o mundo à nossa volta. Também vimos que, junto com outros fatores, estar curioso (em oposição a ser curioso) é a base para pensar de maneira crítica e, precisamente, uma das competências-chave a serem desenvolvidas e fomentadas nas crianças durante os anos iniciais. 

Refletindo sobre nosso contexto atual, percebe-se que a tecnologia de comunicação mudou o mundo drasticamente. E, junto com o modo como nos comunicamos, alimentamos e deslocamos, o jeito com que aprendemos também está sendo alterado. Penso que o papel do professor como convencionalmente conhecemos mudou: aprender deixou de ser um caminho de mão única – com o instrutor como único transmissor do conhecimento. Agora, requer-se que o aluno seja mais agente em seu próprio aprendizado, tendo o professor como mediador. 

“Educação não é uma questão de falar e ouvir, mas um processo ativo e construtivo.”

John Dewey, filósofo e reformador educacional

Isso significa que a construção do conhecimento e do aprendizado se desloca cada vez mais de currículos sugeridos ou impostos por instituições para indivíduos movidos por curiosidade.Nesse novo cenário, a educação deve ser voltada ao estímulo de estados de abertura e reflexão, facilitando modos de aprendizado que instiguem a descoberta e o desenvolvimento de visões pessoais para os conteúdos e assuntos trabalhados. Através desses dois pontos, poderemos capacitar nossas crianças para se tornarem adultos ativos e engajados no desenvolvimento de soluções novas para um mundo instigante e complexo, que já não aceita as mesmas ideias de sempre.

E então? Curioso(a) para ver essa nova realidade? 

Guilherme Parolin 

Equipe Imagine-me

Referências citadas no texto:

  1. LITMAN, Jordan A. Interest and deprivation factors of epistemic curiosity. Elsevier, 2008. 
  2. SHAH, Prachi E. et al. Early Childhood Curiosity and Kindergarten Reading and Math Academic Achievement. Pediatric Research, 2018. 
  3. KASHDAN, Todd B.; SILVIA, Paul J. Curiosity and Interest: The Benefits of Thriving on Novelty and Challenge. Oxford University Press, 2009. 
  4. CICERO, Marcus T. Cicero: De Finibus Bonorum Et Malorum. Forgotten Books, 2018. 
  5. EYAL, Nir. Kids today are lacking these psychological nutrients. Big Think, 2020.
  6. KASHDAN, Todd B.;FINCHAM, Frank D. Facilitating Curiosity: A Social and Self-Regulatory Perspective for Scientifically Based Interventions. Positive psychology in practice, 2004.
  7. BLACK, Aaron E.; DECI, Edward L. The Effects of Instructors’ Autonomy Support and Students’ Autonomous Motivation on Learning Organic Chemistry: A Self-Determination Theory Perspective. John Wiley & Sons, 2000.

* Este artigo do Imagine-me foi revisado por Julio Cunha Neto, do Português de Boa.