Sobre piratas, âncoras e criatividade

Este texto foi escrito especialmente para o blog do Imagine-me pela Fabiana Gutierrez, da Carlotas.


É inegável que 2020 vai ser um ano de muitas mudanças. Mudar assusta, mas traz surpresas. E boas! Basta a gente estar aberto a elas. Dizem por aí que dentro de uma crise sempre há uma oportunidade. Verdade ou não, muitos dos nossos aprendizados vêm pelo erro, por tentar e falhar, por nos encontrarmos em uma situação desconfortável que nos leve à ação. Mas por que esperamos uma crise ou uma situação desconfortável para testar algo novo? O novo – o desconhecido -, muitas vezes, assusta! Preferimos a dor conhecida à insegurança da mudança. No entanto, quando nos aventuramos por esse lugar mágico que é o desconhecido, abrimos oportunidades de viver coisas que nunca imaginamos. 

E o que isso tem a ver com o brincar? TUDO! Na brincadeira, podemos ter um ambiente de experimentação e teste. Fazemos, falhamos, arrumamos e refazemos num espaço no qual o grande foco é a vivência. O brincar nos permite testar diferentes posturas que podem servir de referência em situações cotidianas, ensina-nos a intensidade e a criatividade, a observação e as hipóteses. Durante o brincar, estamos num estado de presença que nos faz focar o aqui e agora e, também por isso, ajuda a interromper fluxos automáticos de rotina que podem resultar em um estado de relaxamento, permitindo-nos sentir diversos benefícios.

Ao longo da nossa jornada para a vida adulta, muitos de nós deixamos de brincar – em diversas instâncias – e, com isso, perdemos recursos importantes para enfrentar situações desafiadoras, transformar crise em oportunidade e se conectar com o outro. 

Falar para brincar pode parecer, para alguns adultos, quase tão assustador quanto andar na prancha de um navio pirata. Por razões diferentes, transitar no universo adulto acaba nos afastando do brincar – esse momento que nos coloca, ao mesmo tempo, num lugar vulnerável de entrega, mas que também nos permite viver experiências de profunda conexão. Infelizmente, como adultos, acabamos nos aproximando cada vez mais da âncora e nos afastamos dos piratas. Ficamos seguros, mas perdemos a aventura. 

Brincar é uma forma real de aprendizagem, estimula a criatividade e a sociabilidade, aumenta o vocabulário e o repertório de vida, ajuda a reconhecer, lidar com as emoções e exercitar a empatia e estreita os vínculos com quem se brinca.

Vários especialistas podem confirmar tudo isso – e revelar muito mais benefícios do brincar. Eu trago tudo isso porque estou há mais de 40 anos brincando, com especialização em monitoria de crianças desde os 14, além de uma imersão de mais de 11 anos nos quais me aventurei na maternidade. Não é sempre que consigo vencer essa batalha entre me agarrar na âncora ou me juntar aos piratas navegando pelos mares, mas sei que vale a pena.  

Espero que você também descubra isso!

Fabiana Gutierrez

Carlotas é um negócio social que cria diálogos sobre a diversidade e promove o respeito e empatia entre as pessoas. Conheça mais em Carlotas.org.


* Este artigo do Imagine-me foi revisado por Julio Cunha Neto, do Português de Boa.